quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Aparência e realidade


“Vi muitos que filosofavam de maneira muito mais douta que eu, mas sua filosofia lhes era, de certa forma, estranha. (...) Estudavam a natureza humana para poder falar dela com sabedoria, mas não para se conhecerem; trabalhavam para instruir os outros, mas não para se esclarecerem interiormente. Muitos apenas queriam escrever um livro, qualquer um, contanto que este fosse bem-recebido. Quando o livro estivesse pronto e publicado, seu conteúdo não lhes interessava mais em nada, a não ser para fazê-lo ser adotado pelos outros e para defendê-lo em caso de ataque, mas de resto sem nada retirar-lhe para seu próprio uso, sem nem se preocupar se o conteúdo fosse falso ou verdadeiro, conquanto não fosse refutado.
Jean-Jacques Rousseau

Em um romance intitulado "A imortalidade", Milan Kundera propõe um interessante questionamento: se pudéssemos escolher entre dormir com uma formidável e notória beldade, porém sem poder contar nada a ninguém ou apenas passear de braços dados com a mesma por uma movimentada avenida, com a condição de jamais com ela nos deitarmos por qual das hipóteses optaríamos? Para o escritor, a maioria das pessoas escolheria a segunda alternativa, pois a aparência é muito mais importante do que a realidade.

Estaria Kundera equivocado ou realmente somos mesquinhos a tal ponto de sobrepor as aparências ao nosso verdadeiro ser? À mente me vem a obra "O burguês fidalgo" de Molière, na qual um indivíduo deseja ostentar conhecimento e bom gosto acerca de música, dança, filosofia, entre outras artes; porém, as mesmas pouco lhe interessam, logo, entedia-se sobremaneira ao ter lições concernentes a elas. Contudo o ser que ignora certos ensinamentos por não serem de grande valia não é o mesmo que comenta entusiasticamente o objeto de estudo cuja maioria dos tópicos ele menosprezou.

É bastante curioso ver determinadas pessoas que declaram o seu amor pela literatura; as quais, contudo, jamais leem. Tal amor poderia ser definido como contemplativo (pois não somos indecorosos a ponto de chamá-lo de fajuto), entretanto pergunto-me se um amor contemplativo seria visto como possível pelos mesmos indivíduos no que tange ao ente amado. Seria exequível alguém conter dentro de si um amor genuíno por uma mulher próxima de si, tendo plena certeza da reciprocidade do sentimento? Acredito que não, todavia o amor pelas artes encontra-se em outra categoria.

O fato acima pode ser compreendido se notarmos que o real desejo não é o prazer e/ou o conhecimento oriundo de determinadas formas de arte, mas sim o status gerado pela apreciação das mesmas, por conseguinte, não é raro nos depararmos com seres que almejam aprender a tocar certo instrumento musical visando impressionar outrem. Intenção análoga motiva pessoas a ler livros a fim de ostentar conhecimento ou frases marcantes. Porém é deveras improvável um indivíduo se tornar proficiente na música, por exemplo, se sua motivação não é a coisa em si, pois o empenho necessário para o aprimoramento soar-lhe-á deveras desgastante e enfadonho. Entretanto, nada impede que alguém comece a escrever porque sinta necessidade e conquiste a admiração de muitos, todavia o reconhecimento alheio pode ser uma consequência de nossas ações, jamais a causa das mesmas, como disse Sêneca: "Embora em campo lavrado possam aparecer algumas flores, não foi por causa de tais plantas, ainda que proporcionem uma bela visão, que foi gasto tanto trabalho.".

Por fim, movidos pela crença tacanha de que a aparência é mais relevante do que a realidade, mudamos mais amiúde nosso visual do que o modo como pensamos sobre dados assuntos. Importamo-nos mais com a forma como as pessoas nos veem do que como vemos o mundo. Em contrapartida já não foi dito que o essencial é invisível aos olhos?

3 comentários:

Território Nenhum disse...

Reflexão do caralho Michel!!!

Lembrei da observação que faz o Ítalo Calvino em "Por que ler os clássicos". Muitas pessoas não admitem dizer simplesmente tô lendo pela primeira vez essa obra clássica, então usam o prefixo (re)lendo, o que é uma forma de orgulho intelectual, de falta de humildade em admitir socialmente não ter lido Machado de Assis, por exemplo.

Acho que o Kundera tem razão. Vivemos querendo impressionar, controlar a imagem social pela qual queremos ser vistos.

Uma vez li uma reportagem na veja cujo título era: "como ganhar verniz intelectual". A reportagem ensinava as citações mais famosas da literatura,etc. Os traquejos para parecer cult.

é foda isso, mas é o que a gente mais encontra por aí. pessoas com verniz.

Sua reflexão me inspirou a escrever sobre isso uma hora dessas. rsrs.

Abração
Záia

Geyme disse...

Oi querido, quanto tempo!! Vim bisbilhotar seu blog e já me deparo com um excelente artigo sobre essa hipócrita babaquice social do cotidiano!! É mesmo, o negócio de manter aparencias e "parecer ser" continua sendo mega importante em pleno sec. XXI. Por isso vemos que nada mudou, aliás, a humanidade anda mais estúpida, cometendo e repetindo as mesmas bobagens! Nossa, fico louca quando alguém diz saber aquilo que nao sabe, afirma ler o livro que nao leu, o filme que nao viu... Pra que??? Tem gente que adora "pagar de babaca"!!! Ademais, ainda temos soltos por aí, o lixo poético, todos se achando atores e artistas numa porcaria de arte qualquer! Isso, refiro-me aos enganadores, que tentam manipular a plateia ao seu favor, quando tudo que tem para vender, é uma ideia narcisa de si mesmo...
Beijao pra vc!!!!!!!!

Francisco Jamess disse...

pô, cê tá vivão, hein, cara?

te reencontrei por acaso na "good writing is sexy", nem reconheci.

bom passar aqui novamente.

abraço