sábado, 6 de fevereiro de 2010

Vendo-me





Há prazos aprazíveis

Mercadorias perecíveis

Vitrines vastas e vistosas

Tão convidativas e amistosas


Um imenso misto de superfluidades

A quem as adquire com dificuldades

Às expensas do essencial

Às custas das próprias costas


Infelizes atendentes empregados

A fim de que pareçam culpados

Pelo vagar; pelo tempo surrupiar


Por fim, almeja-se uma contenda

Questiono-me se é compra ou venda

Sendo os olhos vendados a única certeza 


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Tédio intenso



Qual seria a função do esquecimento,

senão retornos atrás de seu adiamento.

Versos que se desprovidos de veracidade

Inegavelmente são dotados de saudade


Madrugada deveras silente e vagarosa

Quando aprazível é dama assaz formosa

Contudo, quando os notívagos enfastia

É notada como decrépita, horrenda e fria


Se um decreto pudesse ser promulgado

Banindo o tédio, privando-nos deste fardo

Por nenhum ser sensato seria revogado


Contudo para desterrar a atroz monotonia

Necessária, aqui, seria a sua companhia

Fazendo soar a campainha, findando meu exílio.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Contemplando o tempo













“Quanta tolice há no homem que se arrepende e lamenta por não ter aproveitado oportunidades passadas, as quais poderiam ter-lhe assegurado esta ou aquela felicidade ou prazer! O que resta desses agora? Apenas o fantasma de uma lembrança! E é o mesmo com tudo aquilo que faz parte de nossa sorte. De modo que a forma do tempo em si, e tudo quanto é baseado nisso, é um modo claro de provar a nós a vacuidade de todos deleites terrenos” Arthur Schopenhauer – O vazio da existência

É notória a inexistência de deleites indeléveis, pois independente da intensidade de um prazer ou de uma alegria, com o andar da carruagem do tempo, o mesmo tornar-se-á diminuto, podendo até mesmo perder-se no labirinto florestal que é a nossa memória, sendo devorado pelo indômito Esquecimento. Decerto não é infundado lamentar o fato de algo tão sublime como a alegria ser dotada de desmesurada efemeridade. Contudo, lamúrias não são responsáveis por mudança nenhuma, ademais nada valem por si sós.

Schopenhauer afirma que apenas o presente existe, porquanto o que já se passou não é mais real. Porém, tudo tende a tornar-se nada, no máximo, com certa dose de otimismo, lembrança ou esquecimento. Nas palavras do filósofo: "O que foi não mais existe; existe exatamente tão pouco quanto aquilo que nunca foi. Mas tudo que existe, no próximo momento, já foi. Consequentemente, algo pertence ao presente, independentemente de quão fútil possa ser, é superior a algo importante pertencente ao passado; isso porque o primeiro é uma realidade, e está para o último como algo está para nada.". Porém, afirma que nenhum esforço sério merece ser destinado ao que, em poucas voltas do relógio, deixará de ser uma realidade.

Poder-se-ia dizer, por conseguinte, que não há fundamento em se viver, porque nossas atitudes brevemente tornar-se-ão passado, ou seja, deixarão de existir instantes após serem perpetradas. Entretanto, a sentença acima merece ser contestada sob diversos aspectos. Por exemplo, se um excelente livro for lido em uma noite qualquer, mudará a vida do leitor, as formas de pensar presentes no escrito acompanharão quem as leu por um indeterminado período, quiçá perene, proporcionando que o indivíduo aja de forma diferente devido ao contato com tais pontos de vista, que outrora lhe eram desconhecidos. O mesmo se dá com um colóquio produtivo ou com a consolidação de uma amizade, pois embora as recordações das felicidades não passem de sombras, a estima mútua entre os confrades propiciada pelos diálogos permanecerá.

Portanto, pode-se pensar que é bastante simples observar os empreendimentos que merecem receber nosso devido afinco e os que devem ser ignorados, pois nada nos acrescentarão e cuja essência nem sequer existe. Porém cada ação que se faz pode modificar uma vida inteira. Destarte, mesmo ao se estar fazendo algo mesquinho, podemos conquistar resultados formidáveis, como conhecer certa pessoa a qual será responsável por mudar nosso trajeto existencial drasticamente.

Em suma, se somos incapazes de prever casualidades, estas que se dão a todo o momento, devemos, indubitavelmente, apelar ao bom senso na hora de agir, visando dispor de fontes prazerosas, que sejam concomitantemente capazes de nos elevar além das mandíbulas nefastas do tempo, fazendo com que nos sorriam ao invés de pelas mesmas sermos extirpados.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Desejo revê-la


Torcia para vê-la retornar

Todavia, de distorcer o sentimento

A distância ousou se encarregar


Desincumbiu-se da tarefa a contento

Transformando um olhar caído em riso contente;

A vida devidamente observada é belo experimento


Contudo, afasta-se para longe o ser indiferente

Denotando ser a saudade desprovida de princípios

Pois a alegria desponta quando você se faz presente


Entretanto, imergirei em uma série de suplícios

No instante em que nova ausência de súbito ocorrer

De forma análoga a um ciclo: repleto de fins e de inícios


sábado, 16 de janeiro de 2010

Pretexto e protesto


O cenário era uma minúscula vila, cingida por árvores, rios e pequenos animais, estes dispunham de olhares bastante atônitos, dirigidos às pessoas ali presentes, não a elas propriamente, mas sim a seus atos. Um mantinha belas aves encarceradas em gaiolas, obrigando-as a cantarem a fim de o entreter; outros caçavam meramente por prazer, visando não mais divisar o tédio, ao menos durante alguns instantes. A fauna sendo privada da vida para abster seres mesquinhos de momentos enfadonhos. O fastio lhes soa medonho, somente ele, infelizmente. 

Os indivíduos habitantes do ínfimo local zangavam-se se não houvesse uniformidade entre eles, portanto logo ensinavam aos pequenos as formas corretas de pensar. Podia-se ver um homem de cerca de cinquenta anos instruindo um rapaz de tenra idade acerca de alguma baboseira, quiçá privando-lhe de sua ternura, porquanto viam-na como um atroz defeito.

De súbito, antes de uma completa descrição, principiou um intenso incêndio na vila e em suas cercanias, animais foram instantaneamente incinerados, puderam-se ver seres humanos serem devorados por chamas vorazes. Entretanto, havia um fato ainda mais esquisito: nenhum deles fazia sequer um exíguo movimento tencionando fugir do fogo, mantinham-se com as mesmas expressões ostentadas enquanto tudo lhes parecia correr bem. Até mesmo os animais permaneciam imóveis, talvez estivessem habituados ao martírio. 

- Tudo acabado!

Lamentou o desolado pintor, cujo último quadro acabara de ser incinerado pelos cidadãos em fúria, ante a forma como foram retratados pelo artista. Indagaram-lhe se preferia ser queimado também a cessar suas produções nefastas. Não almejavam arte onde viviam, porque a única função desta, afiançavam, era corromper os mais novos e desviá-los do realmente necessário. 

O pintor lamentou-se diante de todos os seus retratos retalhados, após, viu seus pincéis e tintas serem entregues à incandescência. O sentido de sua vida também havia sido reduzido a cinzas. Nunca mais produziria nada, estava escrito nos olhares furiosos de seus vizinhos. Destarte, concluiu amargamente: "na ausência de traços, entrega-se a arte e a si mesmo às traças".


domingo, 10 de janeiro de 2010

Livros engavetados


No quarto não há muita arte

Nem livros por toda parte

Há muitas ideias e imaginação

Reclusas; sem grande exposição

Em um recôndito ambiente

O qual intitulamos de mente


Ser desmacarado é perder;

Desmascarar-se é vencer

Afiançou um ser que sábio julgo

Refiro-me ao sublime Victor Hugo


Gaivotas aprisionadas em gaiolas

Indivíduos escravos com argolas

Livros na sombra de uma gaveta

Reflexos de um mundo maneta


domingo, 3 de janeiro de 2010

Universo em verso


Descrever o universo em verso

Se parece fácil, é o inverso

Em contrapartida, a alegria

É tão simples e tardia


Podemos nos considerar

Se a vaidade não recear

Caçadores indolentes

Protelando presas prementes


Porém, a felicidade se rende

Pois sem titubear atende

Ao clamar da voz

Sendo mansa, não feroz


A alguns denota ser dócil;

A outros é apenas um fóssil

Em suma, no centro da terra

Ou nas profundezas do coração