domingo, 29 de março de 2009

Oposição


Julgo ser um pouco sem fundamento dizer que as pessoas são boas ou ruins, pois acho mais certo definir tais caracterizações como um estado, não como algo definitivo, consequentemente imutável.

Ao observar crianças muito pequenas, nota-se que estas se comovem ao ouvirem uma história triste; contudo, deleitam-se ao judiar de um determinado animalzinho. O mesmo ocorre quando estas estão um pouco mais crescidas: um misto de complacência e crueldade. À medida que vão sendo educadas, a bondade vai se tornando preponderante, logo, quando há privação dessa educação que tem por função humanizar, os indivíduos tendem a ir para o lado da perversidade.

Pegaremos um exemplo fictício, porque este servirá para apresentar duas causas, porém creio que há muitos casos reais análogos a esse. Na obra Os miseráveis, de Victor Hugo, o personagem Jean Valjean foi condenado a um longo período na prisão simplesmente por ter roubado um pão. Foi tratado das piores maneiras possíveis durante o cárcere e de lá saiu repleto de ódio. Contudo uma boa alma o acolheu em seu lar e além de lhe destinar cama e comida, deu-lhe bondade,  inclusive depois de Jean lhe roubar alguns artefatos no meio da noite e sair às pressas sendo pego por uns guardas que o levaram novamente à casa do bispo (seu benfeitor), que disse aos guardas não haver sido roubado pelo homem que eles acusavam, mas sim ter-lhe cedido de boa vontade os objetos que geraram suspeitas por parte da polícia. Tal gesto foi o principal responsável pela mudança de caráter do antigo detento, o qual se tornou um homem incrivelmente bom posteriormente.

Outro caso literário, porém com desfecho oposto, é o presente na obra Frankenstein, de Mary Shelley, onde a criatura executou diversos atos de bondade, embora sendo vista como abominável e por todos repelida devido a sua horripilante aparência, por fim e com muito custo, o mal venceu, por conseguinte o ser outrota cheio de boas intenções só pensava em se vingar de todos que o haviam rejeitado, sobretudo de seu criador.

Este foi crucificado devido à sua fealdade, pois, infelizmente, a beleza é diretamente proporcional à solicitude das pessoas em relação a quem dela é detentor, não restando absolutamente nada à infeliz criatura. Aquele foi salvo por meio de um indivíduo bondoso, embora a prisão e o sistema o tenham tornado incrivelmente perverso. Porquanto não é fator de espanto que as pessoas saiam das penitenciárias ainda piores do que entraram, pois ao invés de receberem uma educação e serem tratadas humanamente, se opta pelo extremo oposto. Tal metodologia é tão eficaz como tentar apagar um incêndio jogando pedaços de madeira e objetos inflamáveis.

Portanto, mediante tais exemplos apresentados, creio ser um estado passível de mudança o que chamamos de bom e de mau, não algo inato; tudo dependendo das situações nas quais estamos inseridos, pois onde houver educação, arte e oportunidades a bondade prevalecerá; contudo, onde não houver nem alimento para os seus habitantes, certamente não haverá altruísmo.

2 comentários:

Vinícius de R. Rodovalho disse...

É isso aí! Concordo, Michel.

Pessoas são indivíduos complexos. Não se pode reduzi-las a esse maniqueísmo simples. Por essa e outras que sou mais adepto às filosofias orientais do Equilíbrio do que a essas nossas doutrinas ocidentais.

Quanto ao tratamento penitenciário, também tens razão. A infraestrutura atual é muito precária, e não está preparada para atender humanos que precisem de recuperação.

Agora, além de melhorar as condições do cárcere, acredito na eficácia do rigor das penas. Não no sentido de ampliar maus tratos, mas de fazer com que elas sejam cumpridas. Humanamente, sempre. Assim, evitamos até que o indivíduo chegue a ser preso.

Mas, tal como as pessoas, a questão também é complexa. Cabe um debate maior.

Liza disse...

as pessoas se fazem no meio.
e o meio é feito por elas.

ou não. né.

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